Unir-se para ter voz e o Associativismo Cervejeiro — Matteo Sanz (SanFrutos) | BEERiceira 2025

Gravado durante o BEERiceira 2025, este episódio do Quem Bebe Por Gosto é uma conversa sobre algo que vai muito além do sabor da cerveja: a força da união.

Junta Matteo Sanz, da Cerveza SanFrutos, e David Santos, um dos organizadores do festival, para discutir o papel fundamental do associativismo cervejeiro — e o que Portugal pode aprender com o exemplo espanhol.

Falado em espanhol e “portunhol”, o episódio capta a espontaneidade e a paixão de dois profissionais que acreditam que o futuro da cerveja artesanal não se constrói sozinho, mas em comunidade.


O setor da cerveja artesanal tem crescido em toda a Europa, mas com esse crescimento vêm também desafios: burocracia, impostos, definições legais e, muitas vezes, falta de representação.

Em Espanha, esses problemas levaram um grupo de cervejeiros a fundar, em 2014, a Asociación Española de Cerveceros Artesanos Independientes (AECAI)— uma entidade que nasceu para dar voz e proteção aos pequenos produtores.

Durante a conversa, Matteo Sanz, presidente da AECAIe um dos fundadores da Cerveza SanFrutos, explica o que motivou este movimento:

“Tínhamos paixão, qualidade e identidade, mas ninguém falava por nós. Era preciso organizar-nos, ser ouvidos e criar regras que fizessem sentido para quem realmente faz cerveja artesanal.”

O objetivo inicial era simples, mas ambicioso: criar reconhecimento oficial para o termo “cerveza artesana” — algo que, até então, nem sequer existia legalmente.


Ao longo dos anos, a AECAI tornou-se um modelo de como o associativismo pode transformar uma indústria.

A associação conseguiu estabelecer critérios oficiais para definir o que é uma cerveja artesanal independente, influenciou políticas fiscais e começou a dialogar diretamente com o governo espanhol.

Mas Matteo sublinha que o verdadeiro impacto vai além da lei:

“A força da associação não está apenas no que conquistou no papel, mas no facto de nos ter feito sentar todos à mesma mesa. Deixar de ver o outro como concorrência e passar a vê-lo como aliado.”

A ACAIE também se juntou à Independent Brewers of Europe (IBE) — a federação que une associações nacionais de cervejeiros independentes em vários países, desde o Reino Unido à Bélgica, França ou Itália. Esta ligação internacional permite que os pequenos produtores tenham peso político em Bruxelas, onde muitas decisões que afetam o setor são tomadas.


A conversa ganha um tom mais pessoal quando David Santos levanta a questão: E se houvesse uma associação semelhante em Portugal?

Ambos reconhecem que o cenário português é vibrante, mas fragmentado. Faltam estruturas formais que permitam aos pequenos produtores defender interesses comuns — como a redução de impostos, a simplificação de licenças ou o apoio à exportação.

“Em Portugal há talento e vontade”, diz David, “mas falta união. E a união começa quando alguém dá o primeiro passo.”

Matteo concorda e partilha uma reflexão que resume o espírito da AECAI: “Unir-se não é perder identidade. É multiplicar força.”


Ao longo do episódio, Matteo partilha exemplos práticos de como a AECAI ajuda os seus membros:

  • Apoio jurídico e fiscal: consultoria em licenças, impostos e regulamentação.
  • Visibilidade e promoção: campanhas coletivas para promover a cerveja artesanal espanhola.
  • Formação e partilha: workshops técnicos e fóruns de discussão entre cervejeiros.
  • Lobby institucional: representação junto das autoridades locais e nacionais.

O impacto é palpável: desde 2014, a cerveja artesanal em Espanha triplicou em volume e profissionalização, com uma identidade coletiva clara.

O nome “cerveza artesana” passou a ser reconhecido legalmente, distinguindo-a da produção industrial.


Apesar do sucesso, Matteo é o primeiro a admitir que o processo não foi fácil.

Criar consenso entre cervejeiros de regiões tão diferentes — da Galiza à Andaluzia — exigiu paciência, diplomacia e visão. “O maior desafio não foi convencer o governo, foi convencer-nos uns aos outros.”

Ele recorda que, no início, muitos viam o associativismo com desconfiança, temendo perda de independência. Mas com o tempo, perceberam que a independência só tem valor quando acompanhada de representatividade.

David Santos acrescenta que este é precisamente o tipo de conversa que o BEERiceira quer promover: discussões que inspiram ação. Não basta beber boas cervejas — é preciso construir o ecossistema que as torna possíveis.


Este episódio é, acima de tudo, um convite à reflexão. Mostra como um grupo de pessoas com visões diferentes conseguiu construir uma estrutura sólida, que serve de ponte entre cervejeiros e instituições públicas.

O sucesso da AECAI é a prova de que o associativismo não é apenas burocracia — é colaboração estratégica. E que o futuro da cerveja artesanal depende tanto da qualidade do produto quanto da capacidade dos produtores de se organizarem.


Matteo Sanz é cofundador da Cerveza SanFrutos, uma das cervejeiras artesanais mais reconhecidas em Espanha, com sede em Segovia.

Ativo na defesa do setor, Matteo faz parte da Asociación Española de Cerveceros Artesanos Independientes (AECAI), organização que representa os pequenos produtores espanhóis.

🌐 Website: cervezasanfrutos.com
📷 Instagram: @cervezasanfrutos
🏛️ AECAI: aecai.es


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